Atualizações MASP l Sala de vídeo: Anna Maria Maiolino e “Histórias feministas”

A mostra Sala de vídeo: Anna Maria Maiolino, aberta em 23 de agosto no segundo subsolo do MASP, teve sua exibição prorrogada e ficará em cartaz até o dia 24 de novembro. 
 
Já parte da exposição “Histórias feministas: artistas depois de 2000”, aberta também em agosto, termina neste final de semana, no domingo, dia 27 de outubro. A mostra está dividida em dois andares: o segundo subsolo será encerrado neste final de semana, enquanto o primeiro subsolo ficará em cartaz até o dia 17 de novembro. 
 
A exposição “Histórias das mulheres: artistas até 1900” continua em cartaz até o dia 17 de novembro. 
 
Sala de vídeo: Anna Maria Maiolino
Um dos nomes mais importantes da cena contemporânea brasileira, a artista multimídia Anna Maria Maiolino (Scalea, Itália, 1942 – vive em São Paulo) ganha uma retrospectiva de sua obra no MASP. A Sala de Vídeo: Anna Maria Maiolino, com nove trabalhos da artista, abre ao público no dia 23 de agosto, ao lado das coletivas Histórias das mulheres e Histórias feministas, ligadas ao eixo curatorial que pauta a programação do museu neste ano, Histórias das mulheres, histórias feministas. Com curadoria de Horrana de Kássia Santoz, assistente curatorial do MASP, a mostra apresenta os nove títulos selecionados em três telas: duas laterais, com trabalhos dos anos 1970-1980, e uma central, com trabalhos dos anos 2000, criando uma espiral de acontecimentos. Os trabalhos dos anos 1970 têm em comum o Super 8, formato adotado por diversos artistas da época, porque, além de permitir maior experimentação, cria diálogos com o cinema e a fotografia, entre outras linguagens. “Eu fiz uso do Super-8 porque tinha necessidade de experimentar”, diz a artista Anna Maria Maiolino.
 
Os vídeos dos anos 1970 também têm em comum a ditadura militar como pano de fundo. A repressão, o silenciamento, a tensão, bem como o conflito e o clima de guerra — que Anna Maria viveu na infância, na Itália — perpassam a obra da artista. Em In-Out (Antropofagia), o primeiro filme da mostra, uma câmera focaliza duas bocas alternadamente. O vídeo, feito entre 1973 e 1974, inicia com uma boca tapada como um gesto de censura. Em X (1974), um olho coberto com renda preta ocupa toda a tela. Em outro recorte, veem-se tesouras e gotas de sangue pelo chão branco. Outros vídeos, como Um tempo (uma vez), feito entre 2009 e 2012, e Aos quatro ventos, produzido entre 2001 e 2011, revelam outra característica da criação da artista: o peso maior dado ao processo do que à obra em si. Maiolino não tem pressa de terminar um vídeo, pode levar anos para concluir um trabalho. ”Posso começar um vídeo e pausar o trabalho, à espera de algo. A arte é, para mim, um meio de obter autoconhecimento”, conta a artista, que por vezes trabalha a partir de escritos poéticos de próprio punho.
 
Para a curadora da mostra, é notável como a palavra, o tempo e o silêncio se tornaram matéria-prima para Maiolino. “Boa parte dos filmes e vídeos recorrem ao enquadramento em close up de partes do corpo, como as mãos, os olhos, a boca, que enfatizam a narrativa política e histórica, reforçado por um elaborado trabalho de edição, seus cortes, montagens e trilhas”, diz Horrana de Kássia Santoz.
 
Histórias feministas: artistas depois de 2000
Todos os anos, a programação do MASP é guiada por um eixo temático pensado em torno de diferentes histórias, elaboradas a partir de diferentes perspectivas, incluindo narrativas reais, ficcionais, pessoais e documentais, vários suportes e distintas temporalidades e territórios — em 2016, foram as Histórias da infância, em 2017 as Histórias da sexualidade e em 2018, as Histórias afro-atlânticas. As histórias inauguram sempre uma grande mostra coletiva e também pautam as exposições individuais, oficinas, seminários, cursos e palestras que ocorrem ao longo daquele ano. Em 2019, pela primeira vez, o eixo será tema não apenas de uma, mas de duas exposições paralelas, Histórias das mulheres e Histórias feministas, com o objetivo de resgatar e difundir o trabalho de artistas mulheres, além de pensar sobre possíveis desdobramentos do feminismo no âmbito das artes.
 
Com curadoria de Isabella Rjeille, curadora assistente do MASP, Histórias feministas: artistas depois de 2000 é um contraponto à mostra Histórias das mulheres, que busca reposicionar a obra de artistas que trabalharam até o final do século 19, ao discutir a diferença de valor entre o universo masculino e o feminino e também entre arte e artesanato. Histórias feministas é um desdobramento do ciclo de 2017, Histórias da sexualidade, e não se propõe a esgotar um assunto tão extenso e complexo como a relação entre arte e feminismo, mas incitar novos debates a partir da produção de artistas cujas produções emergiram no século 21.
 
Histórias feministas foi também título da exposição individual da artista Carla Zaccagnini em 2016 no MASP, anunciando o compromisso e o interesse da direção artística do museu em uma abordagem feminista da história da arte. Na condição dupla de continuidade de um projeto e de novo capítulo de uma série de exposições, Histórias feministas não se propõe, nas palavras da sua curadora, a fazer um mapeamento da arte feminista no Brasil e no mundo, muito menos associar a produção de artistas mulheres a vertentes específicas dos feminismos. “A ideia não é mapear a produção de artistas a partir de um recorte geracional, mas entender como os feminismos vêm sendo utilizados como ferramentas para desmantelar narrativas e transformar a maneira como algumas histórias vêm sendo escritas. A mostra reúne artistas que têm e não têm o feminismo como questão central de sua obra, mas que, de alguma maneira, abordam assuntos urgentes a partir de perspectivas feministas”, diz Rjeille. “A exposição procura mostrar como o feminismo segue influenciando a criação artística, interseccionando lutas, narrativas e conhecimentos.”
 
Segundo a curadora, nesta exposição, o feminismo é entendido como “uma prática capaz de provocar fricções e diálogos trans-históricos e transnacionais”, e que não deixa de considerar as questões de gênero em relação a classe, raça, etnia, geração, região, sexualidade e corporalidade, entendendo-os como elementos que transformam radicalmente e tornam mais complexas as experiências das mulheres ao redor do mundo. A presença da discussão no MASP, por sua vez, insere o museu na rede de esforços que têm sido empreendidos há mais de cem anos para repensar as diferenças, as inserções e as relações entre os gêneros. Nos últimos anos, foram realizadas importantes exposições sobre arte e feminismo, como a icônica WACK! Art and the Feminist Revolution [WACK! Arte e a revolução feminista], com curadoria de Cornelia Butler (2007), e Radical Women: Latin American Art 1960–1985 [Mulheres Radicais: Arte latino-americana 1960-1985], de Andrea Giunta e Cecilia Fajardo-Hill, em 2017/18, apresentada inicialmente no Hammer Museum, Los Angeles, e recentemente adaptada para a Pinacoteca do Estado de São Paulo.
 
Essas e outras mostras abrangem o período de gênese dessa discussão nas artes visuais: dos anos 1960 aos anos 1980. No entanto, além da importante exposição Global Feminisms: New Directions in Contemporary Art [Feminismos globais: novas direções na arte contemporânea], de Maura Reilly e Linda Nochlin (2007), poucas foram as mostras internacionais realizadas que têm o século 21 como foco – ou foram produzidas na América Latina. Com esse recorte, porém, Histórias feministas não busca afirmar que questões do passado estejam superadas ou tenham sido deixadas de lado. “Mesmo porque essas questões não são universais, e não poderiam ser questionadas da mesma maneira em diferentes partes do mundo”, diz Rjeille. “Abordar histórias feministas no século 21 significa partir de um tempo presente, em plena construção e urgência — um tempo que implica não apenas repensar seu passado e rever os legados deixados por artistas, teóricas e ativistas, mas também reimaginar o futuro.”
 
 
Por: Gabriela Valdanha de Araujo
Foto: Anna Maria Maiolino / Crédito: Cortesia Galeria Luisa Strina
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