{"id":17039,"date":"2021-10-19T00:41:33","date_gmt":"2021-10-19T03:41:33","guid":{"rendered":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/?p=17039"},"modified":"2021-10-19T00:43:22","modified_gmt":"2021-10-19T03:43:22","slug":"historia-em-quadrinhos-plurilingue-retrata-lingua-indigena-de-sinais-de-forma-inedita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/historia-em-quadrinhos-plurilingue-retrata-lingua-indigena-de-sinais-de-forma-inedita\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria em quadrinhos pluril\u00edngue retrata l\u00edngua ind\u00edgena de sinais de forma in\u00e9dita"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\" style=\"text-align: center;\"><em>Ap\u00f3s diversas pesquisas, especialistas conclu\u00edram que esses sinais constituem um sistema aut\u00f4nomo, chamado l\u00edngua terena<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria em quadrinhos (HQ) produzida por Ivan de Souza retrata, de forma pioneira, a l\u00edngua ind\u00edgena de sinais utilizada pelos surdos da etnia terena. A obra tem o prop\u00f3sito fortalecer o reconhecimento e a preserva\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas de sinais ind\u00edgenas e \u00e9 apresentada em formato pluril\u00edngue, sinalizada tamb\u00e9m na L\u00edngua Brasileira de Sinais (Libras).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comunica\u00e7\u00e3o por meio da l\u00edngua materna \u00e9 importante pois ajuda a manter viva a cultura, a identidade e a hist\u00f3ria dos povos ind\u00edgenas. Nas aldeias da etnia terena, localizadas principalmente no estado de Mato Grosso do Sul, a l\u00edngua oral terena \u00e9 amplamente utilizada. Os surdos dessa etnia tamb\u00e9m se comunicam com sinais diferentes dos pertencentes ao sistema lingu\u00edstico utilizado pelos surdos no Brasil (libras).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sol: a paj\u00e9 surda ou S\u00e9no M\u00f3kere K\u00e1xe Koix\u00f3muneti, em l\u00edngua terena, conta a hist\u00f3ria de uma mulher ind\u00edgena surda anci\u00e3 chamada K\u00e1xe que exerce a fun\u00e7\u00e3o religiosa de paj\u00e9 (Koix\u00f3muneti) em sua comunidade. Ao ser procurada para auxiliar em um parto e ap\u00f3s pedir a ben\u00e7\u00e3o dos ancestrais para o rec\u00e9m-nascido, o futuro do povo terena \u00e9 revelado e transmitido a ela em sinais. \u201cA hist\u00f3ria mostra um pouco da rica cultura desse povo, as situa\u00e7\u00f5es, consequ\u00eancias e resist\u00eancia ap\u00f3s o contato com o povo branco\u201d, revela Souza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho de conclus\u00e3o do curso de licenciatura em Letras Libras da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) teve in\u00edcio em 2017, quando o estudante pesquisava a hist\u00f3ria dos surdos no Paran\u00e1, na inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Todo o processo teve acompanhamento de pesquisadoras que j\u00e1 desenvolviam atividades com os terena surdos, usu\u00e1rios da l\u00edngua terena de sinais. A comunidade ind\u00edgena tamb\u00e9m teve participa\u00e7\u00e3o ativa no desenvolvimento e depois, na valida\u00e7\u00e3o da obra junto ao seu povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Ma\u00edza Antonio, continuar pesquisando o tema \u00e9 importante para que os pr\u00f3prios integrantes das aldeias entendam melhor os sinais utilizados por parte de seu povo. Ind\u00edgena da etnia terena, ela \u00e9 professora de educa\u00e7\u00e3o infantil e trabalha com a l\u00edngua materna na escola da comunidade. \u201cNossos alunos t\u00eam optado por estudar na cidade, por n\u00e3o estarmos preparados para receb\u00ea-los em nossa escola. Essa hist\u00f3ria em quadrinhos servir\u00e1 como material did\u00e1tico para trabalharmos com os alunos surdos e como incentivo para que n\u00f3s, professores, busquemos novas ferramentas de ensino nessa \u00e1rea\u201d, comenta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Souza e os especialistas que o auxiliaram no projeto tamb\u00e9m desenvolveram um sinal\u00e1rio, isto \u00e9, um registro em libras dos principais conceitos apresentados na narrativa visual e um gloss\u00e1rio pluril\u00edngue abrangendo palavras utilizadas no dia a dia da comunidade. \u201cLevantamos os vocabul\u00e1rios que mais se repetiam e organizamos em uma planilha. Depois buscamos localizar os sinais j\u00e1 existentes em sites e aplicativos. Filmamos os sinais e disponibilizaremos esse material no YouTube, com o objetivo de expandir o conhecimento sobre as l\u00ednguas sinalizadas e de minimizar a barreira lingu\u00edstica\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o autor, o trabalho tem relev\u00e2ncia para os ind\u00edgenas da comunidade terena e de outras etnias e para a sociedade em geral. \u201cEsse \u00e9 mais um material dispon\u00edvel para os terena ensinarem sua hist\u00f3ria de forma acess\u00edvel a ouvintes e surdos. \u00c9 importante tamb\u00e9m para mostrar \u00e0 sociedade como existem povos, culturas, identidades e l\u00ednguas diferentes no pa\u00eds. E que essa diversidade precisa ser respeitada, preservada e valorizada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jovem escritor tem esperan\u00e7a de que o trabalho possa despertar a sensibilidade para com os povos ind\u00edgenas e para as demais l\u00ednguas de sinais presentes no Brasil. Outro objetivo do autor \u00e9 que, com o reconhecimento dessas l\u00ednguas aut\u00f4nomas de sinais, torne-se poss\u00edvel que surdos ind\u00edgenas tenham, de fato, o direito de serem ensinados em sua l\u00edngua materna garantido, assim como apregoado na Constitui\u00e7\u00e3o Federal. Ele pretende distribuir a HQ em escolas ind\u00edgenas, com o objetivo de auxiliar o fortalecimento lingu\u00edstico e de ressaltar a import\u00e2ncia das l\u00ednguas de sinais para essas comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de possibilitar a dissemina\u00e7\u00e3o e a preserva\u00e7\u00e3o da l\u00edngua terena de sinais, a hist\u00f3ria tem o prop\u00f3sito de evidenciar a cultura e a hist\u00f3ria desse povo. O estudante cita uma das pesquisadoras que trabalhou com ele nesse projeto para definir o que pensa sobre o tema. \u201cCada l\u00edngua reflete um modo de ver o mundo, um modo diferente de pensar. Se perdemos uma l\u00edngua, perdemos possibilidades, perdemos a capacidade de criar, imaginar, pensar de um modo novo e talvez at\u00e9 mais adequado para uma dada situa\u00e7\u00e3o\u201d, indica Priscilla Alyne Sumaio Soares em sua tese de doutorado intitulada L\u00edngua Terena de Sinais. \u201cS\u00f3 podemos preservar aquilo que \u00e9 registrado e esse \u00e9 um dos nossos objetivos, preservar uma pequena parte da hist\u00f3ria do povo terena por meio da HQ\u201d, afirma Souza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inspirada na hist\u00f3ria real do povo terena, a narrativa apresenta a comunidade em uma \u00e9poca em que ela ainda vivia nas Antilhas e era designada pelo nome Aru\u00e1k. A paj\u00e9 K\u00e1xe, procurada por uma mulher em trabalho de parto, ajuda no nascimento do pequeno Ilhakuokovo. Ao pedir a ben\u00e7\u00e3o dos ancestrais para o rec\u00e9m-nascido, em um ritual religioso tradicional, o esp\u00edrito de Hopuxokenat\u00ed se aproxima e revela, no c\u00e9u, imagens do futuro daquele povo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed, a obra ilustra um pouco da trajet\u00f3ria desses ind\u00edgenas e da sua instala\u00e7\u00e3o em territ\u00f3rio brasileiro. Buscando caminhos que levasse aos Andes, em meados do s\u00e9culo XVI, os espanh\u00f3is estabeleceram rela\u00e7\u00f5es com os terena, \u00e0 \u00e9poca chamados de Guan\u00e1, na regi\u00e3o do Chaco paraguaio. A chegada dos brancos acarretou muitas mudan\u00e7as nas vidas dos ind\u00edgenas, que procuraram, durante certo per\u00edodo, locais onde pudessem exercer seu modo de vida sem a influ\u00eancia da coloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim esse povo chegou ao Brasil, no s\u00e9culo XVIII, e se instalou na regi\u00e3o do Mato Grosso do Sul. Mesmo em outras terras, os conflitos trazidos pela coloniza\u00e7\u00e3o ainda eram um problema. A Guerra do Paraguai envolveu os terena, que foram for\u00e7ados a participar para garantir seus territ\u00f3rios e, no conflito, perderam muitos membros de sua comunidade. Ap\u00f3s a guerra, quest\u00f5es territoriais continuaram causando embates. Nesse per\u00edodo, os terena se viram obrigados a trabalhar nas fazendas da regi\u00e3o, situa\u00e7\u00e3o que ocasionou a servid\u00e3o dos ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algumas fam\u00edlias dessa popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena se mantiveram \u00e0s margens das fazendas, ocupando pequenos n\u00facleos familiares irredut\u00edveis \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o. Foram essas ocupa\u00e7\u00f5es que, regularizadas no in\u00edcio de s\u00e9culo XX, formaram as Reservas Ind\u00edgenas de Cachoeirinha e Taunay\/ Ipegue (com informa\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Pr\u00f3-\u00edndio de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor conta que uma das principais dificuldades que teve no desenvolvimento da obra foi estudar a religiosidade, as pinturas e as tradi\u00e7\u00f5es da comunidade e que, apesar de enriquecedor, o processo foi desafiador e demandou muito esfor\u00e7o na transposi\u00e7\u00e3o e no acompanhamento junto \u00e0 ilustradora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a orientadora do trabalho e coordenadora do projeto de pesquisa institucional HQ\u2019s sinalizadas, Kelly Priscilla L\u00f3ddo Cezar, fazer uma hist\u00f3ria em quadrinhos sinalizada e tendo como principal objetivo transform\u00e1-la em um material pluril\u00edngue para surdos e para divulga\u00e7\u00e3o das culturas envolvidas foi um grande prazer. \u201cTrabalhar com diferentes l\u00ednguas envolve se debru\u00e7ar nos conhecimentos hist\u00f3ricos com e sem registros escritos. \u00c9 necess\u00e1ria uma grande entrega \u00e0 pesquisa e o Ivan fez isso com louvor. Al\u00e9m de encantar o povo terena com a HQ, os pesquisadores participantes e colaboradores se encantaram com seu empenho e sua autonomia invej\u00e1vel, permeados de humildade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As ilustra\u00e7\u00f5es da HQ foram feitas por Julia Alessandra Ponnick, que \u00e9 acad\u00eamica do curso de Design Gr\u00e1fico da UFPR, autora, ilustradora e roteirista de hist\u00f3rias em quadrinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>HQ\u2019s sinalizadas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O projeto da UFPR \u201cHQ\u2019s sinalizadas\u201d trabalha com temas transversais dos artefatos da cultura surda \u2013 hist\u00f3ria, l\u00edngua, cultura, sa\u00fade. O objetivo \u00e9 criar, aplicar e analisar hist\u00f3rias em quadrinhos sinalizadas como uso de sequ\u00eancias did\u00e1ticas bil\u00edngues para o ensino de surdos. Al\u00e9m da elabora\u00e7\u00e3o de materiais bil\u00edngues capazes de auxiliar na aprendizagem, a proposta permite aprofundar os estudos lingu\u00edsticos como pr\u00e1tica social em contexto de superdiversidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas as HQ\u2019s sinalizadas produzidas pelo grupo apresentam v\u00eddeos sinalizados, desenhos\/ilustra\u00e7\u00f5es e escrita do portugu\u00eas. \u201cEssas linguagens podem ser utilizadas, especialmente, quando a proposta destina-se a contemplar os temas transversais como \u00e9tica, orienta\u00e7\u00e3o sexual, meio ambiente, sa\u00fade, pluralidade cultural, trabalho e consumo, congregando professores e pesquisadores de diferentes \u00e1reas do conhecimento\u201d, sugere Kelly, observando que pesquisas normalmente priorizam a aplica\u00e7\u00e3o da l\u00edngua de sinais no contexto do ensino e da educa\u00e7\u00e3o e que, por isso, \u00e9 t\u00e3o relevante abord\u00e1-las em outras esferas como o projeto j\u00e1 fez, contemplando hist\u00f3ria, psicologia, sa\u00fade mental e esporte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Da Reda\u00e7\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>Fonte: <strong><span style=\"color: #000080;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/www.brasildefatopr.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Brasil de Fato<\/a><\/span><\/strong><\/em><br \/>\n<em>Edi\u00e7\u00e3o: Ana Carolina Caldas<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s diversas pesquisas, especialistas conclu\u00edram que esses sinais constituem um sistema aut\u00f4nomo, chamado l\u00edngua terena A hist\u00f3ria em quadrinhos (HQ)<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":17040,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[6720],"class_list":["post-17039","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias","tag-hqs-sinalizadas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17039","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17039"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17039\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":17044,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17039\/revisions\/17044"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17040"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17039"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17039"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17039"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}