{"id":21082,"date":"2025-09-22T00:14:14","date_gmt":"2025-09-22T03:14:14","guid":{"rendered":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/?p=21082"},"modified":"2025-10-05T00:37:37","modified_gmt":"2025-10-05T03:37:37","slug":"e-bom-discutir-o-mercado-de-quadrinho-mas-quem-discute-o-fazer-quadrinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/e-bom-discutir-o-mercado-de-quadrinho-mas-quem-discute-o-fazer-quadrinho\/","title":{"rendered":"\u00c9 bom discutir o mercado de quadrinho, mas quem discute o fazer quadrinho?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 de hoje que quest\u00f5es relevantes relacionadas ao mercado brasileiro de HQs est\u00e3o na boca do povo. Ramon Vitral, do Vitralizado, h\u00e1 anos alertava para o perigo Amazon e a possibilidade de monopoliza\u00e7\u00e3o na venda de livros \u2013 algo que se concretizou, vide o fechamento de redes de livrarias concorrentes e a consolida\u00e7\u00e3o dessa loja como a principal forma de distribui\u00e7\u00e3o de gibi em \u00e2mbito nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m das finan\u00e7as, o jornalista e tradutor \u00c9rico Assis, ano passado, em sua finada coluna no Omelete, trouxe a forma\u00e7\u00e3o de leitores ao centro da discuss\u00e3o: \u201cTenho uma cren\u00e7a praticamente religiosa de que a pessoa que n\u00e3o l\u00ea \u00e9 a pessoa que ainda n\u00e3o descobriu o que gosta de ler. Que quem n\u00e3o l\u00ea quadrinhos ou diz que n\u00e3o gosta de quadrinhos s\u00f3 n\u00e3o leu o quadrinho certo. Dizer que voc\u00ea n\u00e3o gosta de ler \u00e9 como dizer que voc\u00ea n\u00e3o gosta de m\u00fasica, de cinema, de comida, de pessoas. S\u00e3o muitas op\u00e7\u00f5es para n\u00e3o ter nada nem ningu\u00e9m que agrade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o, de fato, \u00e9 complexa: os n\u00fameros sobre leitura em nosso pa\u00eds s\u00e3o assustadores. No tamb\u00e9m finado Twitter, \u00c9rico prop\u00f4s o aumento da quantidade de bibliotecas p\u00fablicas, especialmente em cidades pequenas: \u201cO que falta no Brasil \u00e9 est\u00edmulo \u00e0 leitura. Ent\u00e3o: bibliotecas. Formando leitores vai ter demanda de livros\u201d. Temos um d\u00e9ficit na acessibilidade a livros \u2013 e a\u00ed voltamos ao aspecto mercadol\u00f3gico da coisa.<br \/>\no mercado nacional de gibi, por mais ca\u00f3tico que seja (e ele parece sempre mergulhado nessa condi\u00e7\u00e3o por in\u00fameros motivos), est\u00e1 sendo discutido em diversos espa\u00e7os, o que \u00e9 bom. Quest\u00f5es sobre diversidade e representatividade tamb\u00e9m s\u00e3o abordadas de forma efetiva. Agora, falta conversar sobre um aspecto pouco lembrado: o fazer gibi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A impress\u00e3o \u00e9 de que muita gente quer os louros de trabalhar com arte (visibilidade, reconhecimento, elogios) sem se preocupar em estar em contato com o lado \u201cchato\u201d da profiss\u00e3o (estudar, trocar ideias, aperfei\u00e7oar o of\u00edcio, reconhecer estar num caminho errado para mudar de rota). E isso vale para os v\u00e1rios players do setor: artistas, editores, imprensa especializada, pesquisadores, organizadores e curadores de eventos. Mas vamos por partes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o tipo de evento mais visto em nossa cena sejam os bate-papos com autores quando do lan\u00e7amento de obras. No entanto, nesse formato, o escopo acaba ficando reduzido por dois fatores. Primeiro: geralmente \u00e9 apenas uma pessoa (o artista) comentando as dificuldades e os prazeres relacionados \u00e0quele trabalho espec\u00edfico. Segundo: o p\u00fablico at\u00e9 interage, mas como tais encontros s\u00e3o realizados assim que o livro fica dispon\u00edvel, pouca gente o leu para querer saber mais a respeito das escolhas narrativas, da constru\u00e7\u00e3o de uma cena marcante. O resultado? A conversa gira em torno do tema da HQ, da import\u00e2ncia daquele assunto para criador, leitor e sociedade como um todo \u2013 algo provavelmente j\u00e1 citado em entrevistas anteriores ao lan\u00e7amento ou na divulga\u00e7\u00e3o do livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pain\u00e9is em feiras conseguem reunir mais quadrinistas ao mesmo tempo no palco. Ver a programa\u00e7\u00e3o de uma Bienal de Quadrinhos de Curitiba \u00e9 um alento, com diversas abordagens sob diversas perspectivas. Ainda assim, falta muito. J\u00e1 superamos a mesa-redonda \u201cMulheres e quadrinhos\u201d, que denotava n\u00e3o s\u00f3 machismo por parte da organiza\u00e7\u00e3o de um evento, como tamb\u00e9m desconhecimento da cena na qual se est\u00e1 inserido. Por\u00e9m, seguimos criando guetos, onde se colam etiquetas em pessoas. Artista queer s\u00f3 est\u00e1 autorizado a falar da experi\u00eancia queer nos quadrinhos? Artista negro pode apenas responder a quest\u00f5es sobre identidade racial nessa m\u00eddia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como comentei, o quadrinho nacional, pelo menos o independente, conta com pilares s\u00f3lidos o suficiente para ser reconhecido como plural e diverso. Nossa cena \u00e9 protagonizada por mulheres, gays, l\u00e9sbicas, trans, ind\u00edgenas \u2013 inclusive, o quadrinista brasileiro mais premiado \u00e9 um negro, oriundo da periferia de S\u00e3o Paulo. Marcar posi\u00e7\u00e3o \u00e9 importante, mas est\u00e1 na hora de os eventos inclu\u00edrem mais temas relacionados ao processo criativo, assim como organizar encontros pr\u00f3prios para isso. L\u00e1 fora a ideia virou uma constante: a programa\u00e7\u00e3o da Toronto Comics Arts Festival deste ano, principal feira de gibi do Canad\u00e1, misturou com maestria a representatividade aos assuntos pr\u00e1ticos, de valia para a rotina de qualquer artista, sem deixar pautas progressistas isoladas num mundo \u00e0 parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como pensar a p\u00e1gina? Quem s\u00e3o as influ\u00eancias dos criadores e como essa influ\u00eancia \u00e9 usada? Como construir uma linguagem visual particular, a qual ser\u00e1 reconhecida pelo p\u00fablico? Quais as diferen\u00e7as entre trabalhar com preto e branco e com cores? \u00c9 poss\u00edvel inovar dentro dos limites dos g\u00eaneros? Como usar metalinguagem sem parecer cafona? Sem contar o \u00e2mbito escolar ou acad\u00eamico, essas coisas basilares pouco est\u00e3o presentes em nossa cena. S\u00e3o infind\u00e1veis pontos a serem debatidos com maior profundidade, com o intuito de enriquecer o conhecimento de todos os elos da cadeia, incluindo leitores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como lembrou Filipe Lima, meu parceiro no podcast Krazy Kazt, uma das marcas da CCXP eram as masterclasses, verdadeiras aulas com astros estrangeiros a respeito do of\u00edcio de quadrinista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mark Waid explicou suas t\u00e9cnicas para escrever roteiro; Simon Bisley deu dicas de pintura; Eduardo Risso, de narrativa etc. Por que quase nunca se aplicou a ideia a artistas brasileiros, tanto ali como em outros lugares? Ao considerar que somente estrelas internacionais t\u00eam capacidade para analisar tais conceitos, curadores contribuem para o estado de coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A imprensa especializada tamb\u00e9m tem muita culpa. Com exce\u00e7\u00f5es pontuais, jornalistas, influencers e afins pouco se debru\u00e7am de verdade sobre as obras. A resenha m\u00e9dia pincela o tema, comenta sua relev\u00e2ncia social, decreta se o desenho \u00e9 \u201cdiferente\u201d. Onde est\u00e3o as entrevistas que mergulham no que o quadrinista quis fazer? Cad\u00ea os v\u00eddeos nacionais como os do Cartoonist Kayfabe, destrinchando o que est\u00e1 no papel e, principalmente, como aquilo funciona para a hist\u00f3ria? A an\u00e1lise tem\u00e1tica de uma HQ, ou ent\u00e3o a de inten\u00e7\u00f5es, tem seu espa\u00e7o, mas n\u00e3o pode ser usada para tudo. Do contr\u00e1rio, quadrinho ruim sempre ser\u00e1 louvado por elementos secund\u00e1rios: amizade, abordar assuntos edificantes etc. \u2013 e a evolu\u00e7\u00e3o da cena passa por considerar ruim um quadrinho que, de fato, seja ruim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esse tipo de conversa se faz mais necess\u00e1ria ainda em c\u00edrculos privados. Seja no WhatsApp, redes sociais, mesa de bar, cad\u00ea os artistas discutindo o uso de t\u00e9cnicas de desenho? As solu\u00e7\u00f5es visuais poss\u00edveis para determinada cena? Os criadores que impactam sua vis\u00e3o de mundo \u2013 e os motivos para isso? A opini\u00e3o sobre a HQ do momento? Se um amigo apresenta um trabalho fraco, algu\u00e9m mandar\u00e1 a real pra pessoa ou dar\u00e1 tapinha nas costas, sem qualquer senso cr\u00edtico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma parte consider\u00e1vel dos quadrinistas brasileiros, especialmente os mais jovens, adora se autointitular \u201cnerd\u201d, ainda mais quando for pra vestir camiseta de her\u00f3i ou engajar num assunto da moda; ser nerd no sentido original do termo (gostar de estudar) d\u00e1 muito trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos esses assuntos parecem desconexos, mas n\u00e3o s\u00e3o. \u00c9 um \u00fanico c\u00edrculo virtuoso: espa\u00e7os para debater arte far\u00e3o com que artistas estejam mais bem preparados; artistas mais bem preparados far\u00e3o obras melhores; obras melhores far\u00e3o com que a imprensa eleve o n\u00edvel da an\u00e1lise; imprensa com n\u00edvel de an\u00e1lise mais alto far\u00e1 com que artistas cobrem por mais espa\u00e7os para debater arte; e assim indefinidamente. Talvez passe por a\u00ed, tamb\u00e9m, o aumento de leitores de quadrinhos no Brasil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por: Thiago Borges<\/em><br \/>\n<em>Fonte: <strong><span style=\"color: #000080;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/oquadroeorisco.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Quadro e o Risco<\/a><\/span><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que quest\u00f5es relevantes relacionadas ao mercado brasileiro de HQs est\u00e3o na boca do povo. 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