{"id":21845,"date":"2026-07-22T00:41:55","date_gmt":"2026-07-22T03:41:55","guid":{"rendered":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/?p=21845"},"modified":"2026-07-22T02:04:52","modified_gmt":"2026-07-22T05:04:52","slug":"preconceitos-dificultam-o-uso-de-quadrinhos-como-fonte-de-pesquisa-academica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/preconceitos-dificultam-o-uso-de-quadrinhos-como-fonte-de-pesquisa-academica\/","title":{"rendered":"Preconceitos dificultam o uso de quadrinhos como fonte de pesquisa acad\u00eamica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Por mais que as universidades tenham acenado para uma maior abertura em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de material que utilizam para basear os seus estudos, alguns obst\u00e1culos ainda s\u00e3o percebidos pelos especialistas que trabalham com quadrinhos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo, a Hist\u00f3ria enquanto disciplina cient\u00edfica apresentou uma vis\u00e3o muito limitada sobre aquilo que poderia ser utilizado como fonte de pesquisa. N\u00e3o \u00e0 toa, foi s\u00f3 no \u00faltimo s\u00e9culo que os acad\u00eamicos deixaram de olhar exclusivamente para fontes de pesquisa hist\u00f3rica consolidadas, como cartas, di\u00e1rios, jornais e legisla\u00e7\u00f5es, e passaram a se abrir \u2013 ainda que a passos lentos \u2013 para o estudo do passado e do presente a partir de documentos de outras naturezas, como as hist\u00f3rias em quadrinhos (HQs), que mesclam textos e imagens de forma estilizada<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As hist\u00f3rias em quadrinhos possuem diversos g\u00eaneros, que v\u00e3o do infantil ao er\u00f3tico e do humor ao realista, podendo ser publicadas como livros, tirinhas,\u00a0<em>graphic novels<\/em>\u00a0e\u00a0<em>fanzines<\/em>. <em>\u201cAs HQs permitem um tipo de aprofundamento que outros materiais n\u00e3o proporcionam, contrapondo uma representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica estilizada a uma narrativa pesada de acontecimentos, como guerras e persegui\u00e7\u00f5es\u201d<\/em>, explica\u00a0<strong>Waldomiro Santos Vergueiro<\/strong>, professor da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e coordenador do Observat\u00f3rio de Hist\u00f3rias em Quadrinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, uma HQ pode trazer ao pesquisador vislumbres da mentalidade dominante, perspectivas e informa\u00e7\u00f5es sobre fen\u00f4menos hist\u00f3ricos importantes, cr\u00edticas pol\u00edticas subliminares ou mesmo consequ\u00eancias da vig\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas. Tais elementos representam dados valiosos para a compreens\u00e3o de um momento hist\u00f3rico. E, como destaca a historiadora\u00a0<strong>Priscila Pereira<\/strong>, professora do Instituto Federal de Educa\u00e7\u00e3o, Ci\u00eancia e Tecnologia do Sul de Minas, n\u00e3o faltam exemplos de produ\u00e7\u00f5es para ilustrar esse exerc\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Internacionalmente,\u00a0<strong><em>Pers\u00e9polis\u00a0<\/em><\/strong><strong>(2000)<\/strong>, a autobiografia de Marjane Satrapi, serve como um relato \u00edntimo acerca da Revolu\u00e7\u00e3o Isl\u00e2mica no Ir\u00e3; e\u00a0<strong><em>O Eternauta<\/em><\/strong><strong>\u00a0(1957)<\/strong>, de H\u00e9ctor Oesterheld e Francisco L\u00f3pez, conta sobre a resist\u00eancia durante a ditadura militar argentina. J\u00e1 no cen\u00e1rio nacional,\u00a0<strong><em>Angola Janga<\/em><\/strong><strong>\u00a0(2017)<\/strong>, de Marcelo D\u2019Salete, trata dos conflitos no Quilombo dos Palmares; e\u00a0<strong><em>Os brasileiros\u00a0<\/em><\/strong><strong>(2009)<\/strong>, de Andr\u00e9 Toral, foca nos embates travados entre ind\u00edgenas e portugueses nas terras do que viria a se tornar o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Metodologia t\u00e3o leg\u00edtima quanto outras<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador\u00a0<strong>Rodrigo Araujo Pedroso<\/strong>, que atualmente realiza p\u00f3s-doutorado em Hist\u00f3ria na USP, avalia que as HQs ainda s\u00e3o pouco citadas em projetos de estudo por encontrarem muita resist\u00eancia no processo de incorpora\u00e7\u00e3o pelas universidades. Na sua vis\u00e3o, existem duas raz\u00f5es principais para isso: o preconceito com a Nona Arte e o comodismo dos acad\u00eamicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cEspecialmente no Brasil, as HQs ainda s\u00e3o vistas como produtos infantis que n\u00e3o deveriam ser objeto de estudo acad\u00eamico. J\u00e1 aconteceu de eu estar em algum evento cient\u00edfico apresentando minha pesquisa sobre quadrinhos e outros profissionais me olharem torto\u201d<\/em>, lembra Pedroso. <em>\u201cOutro problema \u00e9 a comodidade dos professores titulares. Muitos n\u00e3o querem sair da sua zona de conforto, ent\u00e3o n\u00e3o exploram ou n\u00e3o aceitam orientar projetos que utilizem metodologias com que eles n\u00e3o est\u00e3o acostumados, como a an\u00e1lise de quadrinhos.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale salientar, por\u00e9m, que essa metodologia compartilha muitas similaridades com outros m\u00e9todos de pesquisa que foram acatados pela academia com muito mais facilidade. \u00c9 o caso do cinema, por exemplo, que \u00e9 utilizado como fonte de pesquisa n\u00e3o somente na Hist\u00f3ria, mas em outras \u00e1reas do conhecimento, enquanto os quadrinhos seguem marginalizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As similaridades com outras metodologias tamb\u00e9m se encontram nos cuidados necess\u00e1rios para se trabalhar com as fontes. Como nos jornais e nas obras liter\u00e1rias, a investiga\u00e7\u00e3o de HQs exige que o especialista interprete o texto sempre considerando o contexto no qual ele foi produzido, mantendo-se atento \u00e0s subjetividades do autor e at\u00e9 aos seus preconceitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cA aus\u00eancia de pessoas negras em uma hist\u00f3ria em quadrinhos pode indicar a inten\u00e7\u00e3o, declarada ou n\u00e3o, de apagar a presen\u00e7a e a import\u00e2ncia deles na sociedade\u201d<\/em>, alerta Vergueiro. <em>\u201cDa mesma maneira, a representa\u00e7\u00e3o de mulheres predominantemente em pap\u00e9is subalternos pode sinalizar para uma vis\u00e3o machista da realidade.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal quest\u00e3o reitera a percep\u00e7\u00e3o de que a hist\u00f3ria de um quadrinho n\u00e3o \u00e9 uma verdade absoluta, tampouco apenas um fruto da fic\u00e7\u00e3o. Mesmo narrativas de super-her\u00f3is retratam a realidade de alguma forma, \u00e0 medida que exp\u00f5em aspectos do contexto hist\u00f3rico-social em que foi produzida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para exemplificar isso, Pedroso lembra de seu mestrado, em que analisou o atentado de 11 de setembro de 2001 ao World Trade Center a partir de uma s\u00e9rie do Capit\u00e3o Am\u00e9rica. Por mais que o personagem tenha sido criado para encarnar os valores dos Estados Unidos, isso n\u00e3o significa que certas posi\u00e7\u00f5es do pa\u00eds n\u00e3o fossem criticadas. <em>\u201cOs vil\u00f5es n\u00e3o foram apresentados como \u2018terroristas\u2019, mas como v\u00edtimas do imperialismo, cujas a\u00e7\u00f5es eram movidas pelo desejo de vingan\u00e7a\u201d<\/em>, descreve o especialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Futuro da pesquisa em quadrinhos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mercado brasileiro atual de quadrinhos \u00e9 dominado por obras estrangeiras, sobretudo dos Estados Unidos e do Jap\u00e3o, e pelas produ\u00e7\u00f5es de Mauricio de Sousa, autor da\u00a0<em>Turma da M\u00f4nica<\/em>. Mas outros produtores nacionais t\u00eam conseguido conquistar certo espa\u00e7o por meio da internet, em plataformas espec\u00edficas e nas redes sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Carol Ito<\/strong>\u00a0\u00e9 um exemplo disso. A jornalista \u00e9 conhecida por suas reportagens em formato de hist\u00f3rias em quadrinhos, como\u00a0<strong><em>Tr\u00eas Mulheres da Craco<\/em><\/strong><strong>\u00a0(2022)<\/strong>, publicada na\u00a0<em>Revista Piau\u00ed<\/em>, que lan\u00e7a luz aos problemas enfrentados pelos frequentadores da Cracol\u00e2ndia, uma regi\u00e3o de venda e uso de drogas no centro de S\u00e3o Paulo. De acordo com ela, o desenho traz uma abertura para que o p\u00fablico geral se interesse por certos assuntos que n\u00e3o chegariam at\u00e9 ele de outra forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c\u2018Eu n\u00e3o teria lido uma reportagem sobre Cracol\u00e2ndia se n\u00e3o fosse em quadrinhos\u2019. Ou\u00e7o muito esse tipo de coment\u00e1rio sobre os meus trabalhos e, por isso, acredito que a subjetividade e a po\u00e9tica do desenho acabam cativando o leitor de uma forma mais imediata e emocional\u201d<\/em>, pondera Ito. <em>\u201cFora que suprimir parte do texto em imagem tamb\u00e9m \u00e9 um jeito de tornar a comunica\u00e7\u00e3o com o leitor mais sint\u00e9tica, sem perder a profundidade e a complexidade da discuss\u00e3o. Em um contexto no qual estamos disputando a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico o tempo inteiro, essa linguagem aparece como um ganho.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para al\u00e9m do maior acesso aos leitores da popula\u00e7\u00e3o em geral, o fortalecimento das HQs nos ambientes digitais tamb\u00e9m pode trazer benef\u00edcios aos pesquisadores desse tipo de produto. Isso porque permite uma preserva\u00e7\u00e3o mais segura das hist\u00f3rias e o uso de hiperlinks e arquivos multim\u00eddia, que enriquecem o material. Com isso, o acesso e a utiliza\u00e7\u00e3o desses materiais como fontes de pesquisa s\u00e3o facilitados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cO crescimento das HQs independentes e digitais amplia o potencial dessas obras como fonte de pesquisa, \u00e0 medida que facilita enormemente o seu acesso\u201d<\/em>, observa Pereira. <em>\u201cObras que antes estavam restritas a publica\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou distribu\u00eddas localmente agora podem ser encontradas online, lidas em qualquer lugar e por qualquer pessoa com conex\u00e3o \u00e0 internet, inclusive pesquisadores em regi\u00f5es distantes.\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nem tudo s\u00e3o flores. Pereira aponta que a digitaliza\u00e7\u00e3o dos quadrinhos pode ainda trazer novos desafios metodol\u00f3gicos e conceituais. Ela levanta quest\u00f5es sobre a autoria an\u00f4nima, a variabilidade de vers\u00f5es e as perdas ou altera\u00e7\u00f5es no layout e cores, a depender do dispositivo de leitura. <em>\u201cA HQ digital exige do pesquisador maior rigor para avaliar fontes, contextos de publica\u00e7\u00e3o e poss\u00edveis vieses de acesso e visibilidade\u201d<\/em>, ressalva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Arthur Almeida \u00e9 graduado em Jornalismo (FAAC\/Unesp) e cursa especializa\u00e7\u00e3o em Jornalismo Cient\u00edfico (Labjor\/Unicamp).<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>imagem: <a href=\"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/comprar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span style=\"color: #000080;\"><b>Mano K<\/b><\/span><\/a> (Editora Kri\u00f4 Comics)<\/em><\/p>\n<p><em>Por: Arthur Almeida<\/em><br \/>\n<em>Fonte: <strong><span style=\"color: #000080;\"><a style=\"color: #000080;\" href=\"https:\/\/www.comciencia.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Com Ci\u00eancia<\/a><\/span><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por mais que as universidades tenham acenado para uma maior abertura em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de material que utilizam para<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":21850,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"colormag_page_container_layout":"default_layout","colormag_page_sidebar_layout":"default_layout","sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-21845","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21845","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21845"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21845\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21851,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21845\/revisions\/21851"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21850"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21845"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21845"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/kriocomics.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21845"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}