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Webtoon abre espaço para produções mais interativas e gêneros menos explorados no mundo das HQs

Celbi Pegoraro apresenta formato que traz inovações e que chama geração mais nova para a arte sequencial

As webtoons são uma nova linha de histórias em quadrinhos: on-line, coloridas e desenhadas para serem lidas no ambiente digital, principalmente no celular. O formato tem uma paginação vertical e contínua a partir do scroll (rolagem) infinito e conta com a inserção de recursos multimídia, como trilhas sonoras, e outros de animação, conquistando a atenção dos leitores mais jovens e movendo o mercado.

“A webtoon acaba tendo essa possibilidade de trabalhar vários elementos multimídia para transportar o leitor para uma história que seja um pouco mais atrativa”, conta Celbi Pegoraro, pesquisador do Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “É uma possibilidade nova, especialmente para a nova geração, que não se engaja tanto com a versão impressa das histórias em quadrinhos, mas está descobrindo o mundo das webtoons.”

Para dimensionar o tamanho desse formato, somente a plataforma sul-coreana Webtoon contava com 72 milhões de usuários ativos em 2021, 14 milhões só nos Estados Unidos, de acordo com o CEO e fundador da empresa, Jun-koo Kim, em entrevista para a revista norte-americana Forbes (em inglês). O faturamento mensal chegou a US$ 100 milhões por mês.

Originadas na Coreia do Sul, no início dos anos 2000, as webtoons têm sentido de leitura ocidental (da esquerda para a direita) e estão disponíveis também nas plataformas Tappytoon e Tapas, em sua maioria em inglês. A brasileira Social Comics disponibiliza algumas. Com o sucesso, algumas histórias ganharam versão impressa, como Solo Leveling, do roteirista Chugong e o falecido ilustrador Dubu, publicada no Brasil pela editora NewPOP. Outras foram adaptadas em série, como True Beauty, disponível na plataforma de streaming Viki.

Webtoon Solo Leveling – Foto: Reprodução/Webtoon

As webtoons podem ser consideradas uma evolução das webcomics, histórias em quadrinhos publicadas na internet que se diferem por serem desenhadas na lógica do formato impresso e tradicional das HQs. “É aquela história em quadrinho que a gente lia na revista ou a tira de jornal que é transportada para o ambiente digital”, conta Pegoraro. As tiras ilustradas publicadas nas redes sociais são um tipo de webcomic, como a do Armandinho, desenhada pelo cartunista Alexandre Beck.

Celbi Pegoraro – Foto: Reprodução

Produção mais aberta

O processo de produção das webtoons tem uma dinâmica diferente das outras linhas de HQ: muitas das plataformas que exibem as obras abrem espaço para novos autores publicarem suas histórias, com chances de monetizarem a leitura. “O autor pode se inscrever, passar por uma curadoria específica e, dependendo da plataforma em que ele se inscreveu, […] se ele tiver engajamento, se tiver um grande volume de leitura, ele pode ter um valor em cima disso”, afirma Pegoraro.

A gama de gêneros também é mais ampla. Muitas histórias da temática LGBTQUIA+ conseguem ser publicadas e crescer nas plataformas. Um exemplo é Blades of Furry, postada oficialmente na Webtoon (somente em inglês), da ilustradora brasileira Deya Muniz, sediada nos Estados Unidos, e da também ilustradora norte-americana Emily Erdos.

Heartstopper, da autora norte-americana Alice Oseman, é outra história desse gênero, e, com adaptação em livro e série na Netflix, também é um exemplo de como a produção de webtoons está se espalhando por vários países.

Público mais participativo

Nas webtoons, as calhas, os espaços em branco que dividem os quadros, assumem o papel de mensurar o tempo. “Quando a gente lê uma história, a gente tem o trabalho da leitura textual, a leitura da imagem, e o cérebro também interpreta o que ocorre no espaço entre esses painéis”, explica Pegoraro. Com a rolagem infinita, pode parecer que as calhas têm um tamanho exagerado, mas, na verdade, “se a calha for um tamanho muito grande, está tendo um distanciamento temporal na história maior em relação a outras”, afirma Pegoraro.

Exemplo de calha na webtoon True Beauty – Foto: Reprodução/Webtoon

Uma maior interação com o público é outra novidade da webtoon. Além da possibilidade de se entrar em contato com os autores por meio das redes sociais, ao final de cada capítulo há caixas de comentários abertas, um incentivo ao engajamento com a história. Segundo Pegoraro, algumas obras permitem que o leitor escolha o destino dos personagens por meio de uma enquete; outras perguntam o nome do leitor para que o personagem passe a dialogar com ele.

“A NAVER LABS [ramo da empresa da Webtoon] tem uma tecnologia de reconhecimento facial, usando também máquinas de inteligência, de aprendizagem, que faz com que você possa fazer uma selfie e esse aplicativo [te] transforma num personagem animado”, conta Pegoraro a respeito de mais uma forma que a webtoon pode incluir o leitor na história. A realidade aumentada, que permite conhecer um ambiente virtual em 360º, utilizada em jogos como o Pokémon Go, também é uma ferramenta possível para esse formato.

Popularidade em ascensão

Pegoraro vê a webtoon como um fenômeno de crescente alcance, mas ressalva que hoje as HQs em geral não são mais um produto de massa. “São produto de nicho cujo volume financeiro não pode ser ignorado, haja vista também que as histórias em quadrinhos hoje são uma grande commodity para outros tipos de produção cultural [filmes e séries].”

O público que recebe a webtoon nos países ocidentais é jovem e o que está mais acostumado com a produção japonesa, sul-coreana e chinesa, de acordo com Pegoraro. Os atrativos que explicam esse movimento são as facilidades de produção e consumo que os aplicativos permitem e a variedade de temas abordados, mais escassos no quadrinho mainstream. “Então há uma possibilidade muito boa aí de explorar criatividade, explorar novos temas, novos assuntos, e atrair diferentes tipos de público.”

 

Por: Celbi Pegoraro
Fonte: Jornal da USP
Foto de capa: Fotomontagem com imagens de Freepik
Reprodução/Webtoon por Rebeca Fonseca

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