Como as mudanças no Instagram podem afetar quadrinistas e artistas independentes

Daiandreson, Cecilia Marins e Tiago P. Zanetic falam sobre o futuro da rede social

Na última semana, o Instagram anunciou que vai passar a priorizar vídeos. Chefe da rede social, Adam Mosseri explicou que os usuários procuram por entretenimento na plataforma, então para competir com TikTok e YouTube, mudanças serão feitas.

Explicando as principais mudanças, Mosseri afirmou que o Instagram não é mais apenas um “aplicativo de compartilhamento de fotos”, o que instantaneamente pegou de surpresa quadrinistas e artistas que usam a plataforma justamente para divulgar seu trabalho. A resposta foi quase imediata:

Daiandreson, que em fevereiro de 2020 iniciou a publicação de AfroBoy – O Menino Robô, é um dos quadrinistas a usar a plataforma com esse intuito. Com clara inspiração no clássico Astro Boy, de Osamu Tezuka, a publicação acompanha as aventuras de um robô brasileiro e seu criador, o dr. Milton. O autor relembra que a história produzida diretamente para o Instagram fez sucesso logo de cara:

“A série AfroBoy teve bastante alcance no início. A plataforma entregava minhas postagens para 80% do meu público, fazendo o engajamento crescer gradativamente. AfroBoy um boom no meu Instagram, algo que eu não esperava.”

Outro exemplo de quadrinho produzido diretamente para a plataforma é Três Estações, de Cecília Marins. A quadrinista relata uma experiência muito positiva com o Instagram, que por conta do bom alcance se tornou uma ponte entre ela e um público cativo, outros artistas e até clientes:

“Funcionava tanto pra posts separados (uma ilustração avulsa, uma divulgação de participação em live) quanto em posts seriados, que nem as primeiras páginas do Três Estações. Eu não me preocupava tanto que eles não iam aparecer mais. Claro que antes eu tinha que ficar de olho nas métricas do perfil, postar com uma certa frequência e interagir com o público. Não tem crescimento na plataforma sem isso. Mas agora esse engajamento comparado com o que meus reels têm é quase nada.”

Marins acredita que a plataforma está passando por um processo de adaptação parecido com o de Facebook e outras redes sociais. Com foco em se adaptar a algoritmos e recompensar quem produz de acordo com eles, o Instagram agora parece correr para responder ao aumento no consumo de streamings:

“Já faz tempo que os artistas não são obrigados só a serem artistas, mas também, falando das redes sociais, eles têm que ser influenciadores e social medias. Juntando esses dois fatores, acontece que agora o formato no qual produzimos não está mais em alta e não somos uma parcela tão significativa entre os grandes influenciadores da plataforma.”

Para Tiago P Zanetic, o fato de artistas serem menor número na plataforma vai criar uma concorrência desproporcional entre quem produz o que está em alta e quem utiliza o Instagram aos moldes originais com destaque para imagens:

“O foco em vídeo, tirando a característica inicial da plataforma, que era fotos, fará com que o conteúdo estático seja completamente enterrado por dancinhas, por exemplo. Claro, o apelo mais popular da rede social faz com que haja muito consumo de vídeos, e não seria um problema, mas as novas diretrizes forçam quem trabalha com arte a se reinventar.”

Daiandreson afirma que já passou a sentir mudanças no algoritmo. Além de uma pressão para o aumento no número de postagens, ele revela uma queda no alcance. Mais do que likes ou compartilhamentos, essa é a métrica fundamental para o seu trabalho, já que sinaliza que as pessoas estão recebendo os novos lançamentos:

“Sei que essa mudança ainda vai afetar bastante o meu alcance na plataforma, então terei que ver outros meios, como usar uma segunda plataforma como principal e o Instagram como veiculação de anúncio. Não queria ser dependente de redes sociais para que meu trabalho seja visto, mas é o meio de comunicação do momento.”

Cecília Marins acredita que nem tudo está perdido. Citando que muita gente conhece seu trabalho através dos reels e de streams, a quadrinista afirma ter percebido que há um público que consome também o cotidiano de um artista.

“Vejo isso nas streams da Twitch, por exemplo: tem um público cativo e um bom fluxo de leigos ou aspirantes a artista que gostam de ver que programa a gente usa, como que eu estruturo uma página de quadrinhos, como que eu crio uma fonte com a minha letra…”

O lado negativo é quando uma coisa não complementa a outra e o produto final acaba esquecido:

“Quando eu termino uma arte ao vivo, as pessoas amam… mas uma tirinha, por exemplo, como traduzimos ela pra vídeo? Como a gente preserva essa narrativa? Acho difícil.”

Para Zanetic, o problema não deve afetar apenas artistas, mas também outros nichos:

“Vejo um impacto gigantesco também na vida de pessoas que fazem resenhas de livros, notas de cultura pop e até mesmo blogueiras de moda e maquiagem. Imagino que quem tenha aptidão para animação saia na frente com essas mudanças, mas de resto, vejo um futuro bastante sombrio para nós artistas pequenos.”

O futuro do Instagram ainda é nebuloso. Sem respostas concretas sobre como a plataforma vai mudar, resta esperar para ver. Marins conclui que apesar de trazer novos desafios, essas mudanças fazem parte da experiência de utilizar as redes sociais:

“Acho que a rede social te dá a oportunidade não só de ser um artista, mas de ser amigo do seu público. Isso rende bons frutos se feito certo? Sim. Às vezes demanda muito do produtor de conteúdo? Claro. Às vezes ele simplesmente não quer ter esse tipo de relacionamento ou exposição? Pode ser. Só que quando a gente tá dentro de uma plataforma a gente é obrigado a dançar conforme a música.”

A assessoria do Instagram falou ao Site Jovem Nerd para fazer um esclarecimento sobre as mudanças da plataforma. Melissa Magrani, head de comunicação da plataforma para a América Latina, afirmou que a rede social não deixará de ter fotos. Ela explica que a fala de Adam Mosseri faz referência às ferramentas da plataforma que vão além do compartilhamento de imagens:

“Em seu vídeo, Adam Mosseri fala sobre as experiências que queremos criar no Instagram com base no que ouvimos e vemos dentro da nossa própria plataforma. Em nenhum momento Mosseri diz que o Instagram deixará de ter fotos, mas sim que o Instagram já não é mais apenas um aplicativo de compartilhamento de fotos quadradas – em referência a quando foi lançado, em 2010 -, pois já é muito mais do que isso. O que as pessoas fazem hoje no Instagram, com os diferentes formatos e superfícies disponíveis, como Stories, IGTV e Reels, vai muito além do compartilhamento de fotos.”

 

Por: Gabriel Avila
Fonte: Jovem Nerd

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