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Noite de entrega do Troféu HQMix é marcada por protestos contra a falta de diversidade no prêmio

Das 42 categorias, apenas oito premiaram mulheres. Quadrinistas levaram cartazes e também cobraram a presença de mais autores racializados, LGBTQIA+ e de fora do eixo Sul-Sudeste

O que deveria ser um momento de ode e celebração aos quadrinhos brasileiros acabou se tornando motivo de indignação e protesto. Assim foi o clima da cerimônia de entrega do 35º Troféu HQMix, realizada na noite dessa quarta-feira (6), em São Paulo. Das 42 categorias, apenas oito premiaram mulheres, o que levou um grupo de artistas a se manifestar contra a falta de diversidade na premiação mais importante para a nona arte no país.

Durante o evento, parte do público ergueu cartazes questionando a desigualdade de gênero entre indicados e vencedores. “Onde estão as mulheres nas premiações?” e “1 editora. 60 autores. 5 mulheres” foram algumas das provocações escritas. Também foi enfatizada a baixa diversidade regional e racial entre as nomeações. “Sua editora publica pessoas racializadas, periféricas, fora do eixo Sul-Sudeste e LGBTQIA+?”, perguntou um dos cartazes.

“No Censo 2022, ficou mostrado que a população brasileira é 52% feminina. Eu não sei dados do mercado de quadrinhos nacional, mas, por experiência, eu sei que ele é composto de muitas mulheres. Nós somos roteiristas, artefinalistas, coloristas, letristas, produtoras de evento, editoras. Então, cadê a gente aqui num prêmio incrível como o HQMix? Cadê as mulheres?”, contestou a quadrinista Helô D’Angelo, vencedora da categoria “Novo Talento – Desenhista”, quando subiu ao palco.

“E não só falando de gênero, mas a gente precisa ter mais autores racializados também. Autores periféricos não só das periferias de São Paulo, mas das chamadas periferias do Brasil. Então, eu acho que é urgente premiações como essa, que eu admiro, que eu sempre sonhei em estar aqui. É urgente que a gente consiga ter mais pessoas diversas votando nas diversas categorias para que isso não volte a se repetir”, continuou.

Quadrinistas chamaram a atenção para a falta de diversidade na premiação. (Foto: Reprodução/Twitter/Mina de HQ)

A jornalista Gabriela Borges também se manifestou durante seu discurso e relembrou reivindicações anteriores a respeito do espaço ocupado por mulheres na premiação. “Em 2015 a gente fez uma carta aberta, de várias mulheres, sobre a falta de mulheres entre as finalistas.”

Ela foi vencedora na categoria “Publicação Independente de Grupo”, pela Revista Mina de HQ, que destaca a produção em quadrinhos feita por mulheres cis, pessoas trans e não binárias. Durante o discurso, Gabriela abordou a falta de diversidade que existe nas categorias do prêmio e se referiu não apenas na questão de equidade entre indicados homens e mulheres, mas outros grupos marginalizados. “Espero que a gente veja mais mulheres, pessoas trans, pessoas LGBTQIA+, pessoas racializadas, indígenas, de fora do Sul e do Sudeste, pessoas das periferias.”

A editora destacou ainda a urgência de ações afirmativas para mudar essa realidade, e ainda apontou que o problema não é a ausência de diversidade nas inscrições. Por fim, Gabriela estendeu as críticas de seu discurso a outras plataformas além do HQ Mix. “Que assim seja, em todos os prêmios de quadrinhos no Brasil, na curadoria dos eventos e também nas escolhas das publicações da editoras, isso é muito importante.”

Os discursos de Gabriela e Helô foram apoiados por diversas pessoas presentes no prêmio, que se sentiram representadas nas palavras de ambas. (Foto: Reprodução/ IG Gabriela Borges)

Posteriormente, em entrevista a O Grito!, Gabriela aprofundou as questões que tratou em seu discurso, explicando os motivos de ter feito as críticas à falta de diversidade da premiação. “O trabalho da Mina de HQ é um trabalho político, com intencionalidade. Ou seja, eu não poderia fazer um discurso apenas agradecendo, quando sei que um prêmio que eu vou receber não tem diversidade e representatividade. A verdade é que o mundo não tem a questão das desigualdades resolvidas, muito menos o Brasil. Porque na cena local de quadrinhos isso seria diferente? Não é, infelizmente. Para mim, esse tipo de protesto e cobranças que aconteceram no HQMIX ontem são fundamentais.”

Em relação aos outros espaços apontados por ela em sua fala, Gabriela apontou que este é um problema que acontece não apenas no Prêmio HQ Mix. “A falta de diversidade e representatividade no HQMIX não é um fato isolado, não é um problema apenas do Prêmio. É um problema geral. A maioria dos homens só cita homens, só apoia homens, só contrata homens, e por aí vai.”

Sobre a cobrança por ações afirmativas que promovam a pluralidade no setor de quadrinhos, Gabriela apontou a fragilidade nos avanços e no cumprimento das medidas. “Como disse no meu discurso e falo há muito tempo, os eventos não tem a diversidade como prioridade, nem as editoras, nem os prêmios. Falta intencionalidade e ações afirmativas. As coisas mudam em um ano e retrocedem no outro. É preciso firmeza e que esse seja um movimento genuíno, principalmente, de quem está no topo da cadeira de produção.”, finalizou.

 

Por: Gabriela Agra
Fonte: Revista O Grito

 

 

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