HQ coloca racistas em casa-grande assombrada por passado de escravidão

Três racistas entram em uma casa colonial assombrada por fantasmas do passado. Esta é a história de ‘Casagrande’, HQ assinada por Robson Moura, quadrinista e professor das redes de ensino de São Paulo. O autor se inspirou em elementos da cultura pop como o filme terror ‘Corra‘, de Jordan Peele e o livro ‘Kindred‘, de Octavia Butler – ambos autores negros, como Robson. Mas, o responsável principal por despertar a imaginação do artista para a criação dessa história, foi a história de ancestralidade no Brasil.

“Minhas inspirações vieram de várias fontes. A primeira são relatos que ouvi sobre pessoas que visitavam casas coloniais e disseram ouvir vozes, barulhos, sentiam-se mal… Isso despertou minha curiosidade”. Diz Robson.

Casa-grande e o sangrento passado colonial 

O resultado é a história de Laurie, Fernão e Félix, três irmãos que herdam uma antiga casa colonial após o falecimento do pai, um político com passado obscuro. Eles são declaradamente racistas e acreditam na supremacia da raça ariana. Na visita a esta casa-grande, serão recebidos por fantasmas de um sangrento passado colonial. E que não querem eles ali.

Para Robson, o trio de irmãos acaba sendo os protagonista e, ao mesmo tempo, os vilões da história. Eles possuem essa ambiguidade, ressalta o autor. “Muitas falas e ações que eles realizam são referências de coisas que ocorreram no Brasil nos anos recentes, sendo assim, eles operam dentro de uma lógica racista e de impunidade mas passarão por dias difíceis, já que terão que encarar uma estadia não muito amistosa com o protagonista principal, que é a casa-grande e seus fantasmas de um passado colonial”, explicou.

Muitas das histórias que Robson ouviu durante suas pesquisas se repetem dentro dos quadrinhos de ‘Casagrande‘. Dessa vez, do ponto de vista de um autor negro. “Descobri que algumas casas coloniais se tornaram hotéis – que é um dos desejos de uma das minhas personagens”, ressalta.

‘Casagrande‘ segue os títulos ‘Black Friday‘, HQ de 2017, e ‘Pérolas Brancas‘, HQ de 2019 – todas assinadas por Robson Moura. “Desde criança, graças aos meus irmãos, desenvolvi um interesse por desenhos e, consequentemente, histórias em quadrinhos. Mas foi aos 7 anos mais ou menos, em uma creche em que minha mãe precisava me deixar para ir trabalhar, que tive contato com minha primeira HQ”, contou.

O professor ressalta ainda que, na adolescência vivida no interior de São Paulo, passou a produzir e publicar fanzines, mas foi na idade adulta que seus trabalhos tomaram novos rumos com a inserção da questão racial como tema principal. Mais tarde, ele se formaria em Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Bauru.

 

Por: Karol Gomes
Fonte: Hypeness

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