Estamos constantemente aprendendo a cair

Mantendo sua tradição de apresentar ao leitor quadrinhos europeus alternativos, a Nemo, selo de histórias em quadrinhos do Grupo Autêntica, traz ao mercado mais um título de autor estreante no Brasil: Aprendendo a Cair, do quadrinista alemão Mikaël Ross.

Ao contrário do que muitos imaginam, não estamos todos no mesmo barco. No máximo, estamos todos no mesmo mar, porém alguns têm embarcações luxuosas, outros possuem botes, uma outra parcela conta com canoas rudimentares e  muitos outros, sem a condição mínima, acabam se afogando sem um colete salva-vidas sequer. Todos passam por momentos complicados e de superação, mas as condições variam para cada indivíduo, e para uns a volta por cima tende a ser bem mais desafiadora. Aqui, Noel é um jovem aparentemente normal aos olhos de quem o vê sem observar atentamente. É mais um garoto berlinense fã da banda AC/DC, com fixação por capas de super-heróis, que gosta de marshmallows e ajuda sua mãe nas compras de supermercado. Mas, ao observar suas atitudes e as somando à sua forma de se comunicar e agir, logo se percebe sua condição, que necessita de cuidados. Por isso, Noel é protegido com zelo por sua mãe.

Como a queda de um vaso de cristal, despedaçando no chão em incontáveis estilhaços após ser vítima de uma ação involuntária, a vida de Noel muda após sua genitora, pessoa à qual depende totalmente sua vida, sofre um derrame e vem a falecer. Sendo menor de idade, sem outros familiares e principalmente por suas condições especiais, o desafortunado garoto é transferido contra a sua vontade do apartamento onde sempre viveu para um centro de cuidados onde precisa conviver com pessoas em mesma situação social e clínica, porém desconhecidas ao seu convívio. A queda de Noel é devastadora e ele ainda não aprendeu como se levantar, ainda mais levando em consideração sua capacidade diferente de perceber as situações.

A trama tem seu valor: é louvável como foi inteiramente construída através da condição do protagonista, não só nos balões de diálogo, mas também nas caixas de texto. A narrativa é feita totalmente sob o olhar de uma pessoa inocente que vê o mundo de forma muito particular. O tema sensível e humano é um grande atrativo e todo o cuidado no traço e cores do autor também são dignos de nota, porém falta consistência na execução final.

Algumas partes da história parecem não ter fim e são interrompidas abruptamente para dar lugar a outro acontecimento no capítulo seguinte. O anticlímax acaba presente em partes decisivas e assim afasta o apego a uma trama que estava até então sendo bem executada. Infelizmente, não se pode agradar a todos. Apesar da grande aceitação de público e crítica, colhendo frutos como o Prêmio Max und Moritz de 2020 na categoria Melhor Quadrinho em Língua Alemã e traduções e edições para diversos países, a obra não toca como se esperava.

Encomendada em celebração dos 150 anos da instituição Evangelische Stiftung NeuerkerodeAprendendo a Cair é fruto de um mergulho do autor não só às instalações da fundação, mas também de convivência com os lá residentes. A imersão ajuda na compreensão do quão necessário é a atuação nessa área de assistência, que muitas vezes é tratada de forma invisível.

A edição da Nemo segue os mesmos padrões de sua linha de quadrinhos quanto ao formato, capa e papel utilizados já há um bom tempo. Esta é apenas a terceira obra do quadrinista de Munique. Em 2021 justamente no ano em que completa 10 anos de carreira, Ross lançou seu quarto trabalho: Goldjunge (Menino de Ouro, em tradução livre) narra a juventude de Ludwig van Beethoven, que mais tarde se tornaria um dos maiores compositores da humanidade. Ainda não se sabe quando ou se outras HQs de Ross serão publicadas por aqui, mas a porta está aberta, e seu acolhimento não só no mercado brasileiro mas em outras partes do mundo tende a ser com similar esmero ao visto em Aprendendo a Cair.

Aprendendo a Cair
Mikaël Ross (roteiro e arte)
Renata Silveira (tradução)
Mariana Faria (revisão)
128 páginas
24 x 19 cm
R$69,80
Capa Cartonada
Nemo

 

Por: Marcus Santana
Fonte: Torre de Vigilância

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